Todos nós já tivemos a experiência de tentar nos lembrar de um nome ou da resposta a uma pergunta. Embora soubéssemos a resposta, por mais que tentássemos concentrar nossa mente para encontrá-la, ela não vinha. Finalmente, quando tínhamos deixado a questão de lado e voltando nossa atenção para outras coisas, a resposta aparece espontaneamente. Na verdade, ao tentarmos com muita insistência, estávamos nos impedindo de encontrar a resposta, ao passo que, ao abrirmos mão do problema, relaxando e deixando nossa energia fluir novamente, permitimos que a resposta viesse até nós.

Essa qualidade de abrir mão, de soltar, nos ensina a viver e a trabalhar com uma descontração fluente, uma atitude serena até mesmo diante das situações mais complexas. Quando abrimos mão dos problemas que contraem a nossa mente e o nosso corpo, liberamos uma energia que pode, então, se mover em direções novas e mais positivas. Abrir mão é liberar – um gesto que leva o movimento da energia criativa a todas as nossas ações, abrindo-nos para novas possibilidades de agir e de pensar, para novos modos de ser. Visto que segurarmo-nos às coisas é uma tendência comum em nossa cultura, abrir mão, a princípio, parece representar uma resposta pouco eficaz para os nossos problemas. A expressão “ir até o fim, custe o que custar” denota o valor que damos ao apego às nossas idéias e emoções. No nosso caso, pode ser que tentemos controlar nossa experiência, procurando manter um ponto de vista coerente. Desde a infância, nos ensinam esse tipo de controle e, ao exercê-lo, aprendemos, na verdade, a reprimir ou guardar tanto as nossa idéias como os nossos sentimentos. Passamos a pensar que “abrir mão” é o mesmo que ceder ou, de algum modo, perder o controle. Por vezes, a fim de manter o controle e proteger a nossa auto-imagem, ou convencer os outros que estamos certos, optamos por nos manter agarrados aos nossos pontos de vista, mesmo quando sabemos que estamos errados.

Pode parecer que nos conservarmos presos a uma posição signifique força e perseverança, mas, de fato, isto força uma rigidez que restringe as nossas perspectivas e nos impede de ver a realidade da situação. O que existe por trás dessa rigidez, dessa necessidade de controle? Quando reagimos a dificuldades de modo tenso e inflexível, estamos na realidade nos segurando ao medo, embora nem sempre nos damos conta disto. Mantemos nossos sentimentos sob controle porque tememos expor, nós mesmos e aquilo em que acreditamos, às reações dos outros. Uma falta de autoconfiança subjacente faz com que deixemos trancado, dentro de nós, muito daquilo que sentimos e em que, na verdade, acreditamos. Quando abrimos mão dos nossos medos, bem como das emoções e opiniões fixas que derivam do medo, começamos efetivamente a ganhar controle sobre as nossas vidas. Solucionar nossos problemas passa a ser mais fácil; o trabalho torna-se mais leve e agradável, e nossos relacionamentos, mais satisfatórios.

Conforme nossas tensões internas diminuem, aumenta nossa capacidade de viver nossos sentimentos com clareza. As emoções perdem seu controle sobre nós, pois elas só podem sobreviver se as provemos de energia. Adquirimos um conhecimento claro acerca de cada situação, o que nos dá força e confiança reais. Na medida em que os nossos sentimentos e percepções passam a fluir mais naturalmente, somos capazes de responder, com maior flexibilidade e com um coração aberto, às necessidades de cada nova situação. Quando aprendemos a abrir mão, permitimos que a forma do nosso ser se transforme.

No momento em que de fato abrimos mão, liberamos nossa energia criativa inata para fluir através de todas as nossas experiências. Podemos tomar a energia que normalmente colocamos em nossas emoções e opiniões fixas e empregá-la para buscar soluções mais saudáveis e produtivas para os nossos problemas. A medida que aprendemos a nos adaptar prontamente às solicitações de cada situação bem como às necessidades daqueles que nos cercam cada experiência se torna uma oportunidade para aprofundarmos nossa apreciação de nós mesmos e das outras pessoas.

Quando nos damos conta do valor que há em abrir mão, podemos começar a desenvolver esta qualidade em nossa vida cotidiana. Toda vez que você se perceber segurando-se a uma posição ou emoção, incapaz de abrir mão dela, relaxe por alguns minutos e deixe sua respiração acontecer suave e uniformemente. Então, escolha uma tarefa e, devagar, vá entrando nela, esquecendo todo o resto. Desenvolva uma qualidade de concentração que não seja forçada, mas muito leve e delicada. Concentrando-se desse modo por um período, você poderá começar a afrouxar seus padrões mentais e dispersar as energias que estiverem bloqueando o seu bem-estar. Tente não pensar nos problemas que você está tendo, mas, apenas, invista toda a sua energia na tarefa escolhida, permanecendo com ela até que esteja concluída.

Sempre que você sentir uma pontada de culpa ou de preocupação, atraindo-o de volta para um estado mental não salutar, traga sua atenção gentilmente para o que está fazendo, esforçando-se para equilibrar as emoções com sentimentos positivos. Permita, simplesmente, que sua mente entre em contato com a energia positiva que você está colocando no seu trabalho, e abra mão de quaisquer tendências negativas que possam surgir. Você perceberá que novas energias se tornam acessíveis para ajudá-lo a trabalhar de modo claro e desimpedido. Cada momento oferece novas oportunidades para aprendermos e crescermos; não precisamos permitir que nossas emoções e reações mentais habituais nos restrinjam e nos limitem.

Podemos utilizá-las como tempero para tornarmos nossas vidas ricas e saborosas. Cada situação problemática é uma oportunidade para praticarmos, para abrirmos mão do nosso apego à negatividade. Cada vez que abrimos mão e nos permitimos mudar, podemos tirar proveito da energia abundante que existe dentro de nós, abrindo-nos para um crescimento contínuo. Abrir mão desta maneira gera um potencial enorme para um viver saudável, pois os meios que desenvolvemos para lidar com as nossas dificuldades são, ao mesmo tempo, os meios através dos quais saboreamos a vida e nos regozijamos com ela.

Quando somos flexíveis, capazes de nos adaptar até mesmo às exigências de situações difíceis, tornamo-nos eficientes em tudo o que fazemos. Aprendemos e mudamos constantemente. Ao invés de perseguirmos obstinadamente nossas metas, podemos trazer uma qualidade leve e fluida a cada ação, que nos permite atingir nossos objetivos com tranquilidade e satisfação. Assim que descobrimos que temos capacidade para realizar tudo o que nos propomos, começamos a acordar e a ver novas possibilidades na vida. Tornamo-nos os nossos próprios mestres guiando-nos em direção a uma interação fluente com nosso meio ambiente e com o mundo. A medida que continuamos a nos abrir para a natureza da existência, somos capazes de compartilhar com os outros e de participar de ações que trazem benefício a todas as pessoas.

Tarthang Tulku – O caminho da habilidade

mini124

 

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