Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se o que ela significa, o que ela ensina,qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrário teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer realmente quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas é ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la.

Por isso podemos aprender muita coisa da doença para a nossa saúde e que aquilo que parece ao neurótico absolutamente dispensável, contém precisamente o verdadeiro ouro que não encontramos em outra parte. Em muitos casos, devemos exclamar: Graças a Deus, ele conseguiu que sua mente se tornasse neurótica. A neurose é, de fato, uma tentativa de autocura. É uma tentativa do sistema psíquico auto-regulador para restaurar o equilíbrio, de modo algum diferente da função dos sonhos – apenas mais vigorosa e drástica. Eu mesmo conheci mais de uma pessoa que devia toda a sua prestabilidade e sua razão de existir à neurose, a qual impediu todas as piores loucuras de sua vida e forçou-o a um modo de vida que desenvolveu suas valiosas potencialidades.

Estas poderiam ter sido sufocadas se a neurose,com mão de ferro, não o tivesse forçado a ocupar o lugar que de fato lhe pertencia. As neuroses como todas as doenças, são sintomas de desajustamento. Por causa de algum obstáculo – uma fraqueza ou defeito constitucional, etc – a pessoa recua diante das dificuldades que a vida oferece e encontra-se, assim, de volta ao mundo da infância. O inconsciente compensa essa regressão produzindo símbolos que, entendidos objetivamente, isto é, por meio de pesquisa comparativa, reativam as idéias gerais que são subjacentes a todos esses sistemas naturais de idéias. Assim, surge uma mudança de atitude, que serve de ponte para a dissociação entre aquilo que o homem é, e aquilo que ele deveria ser. O que vem ao encontro do doente na dissociação neurótica é uma parte estranha e não reconhecida de sua própria personalidade. Ela tenta forçar seu reconhecimento com os mesmos meios que utilizaria uma parte do corpo, teimosamente recusada, para marcar sua presença.

– Carl Jung

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