FASCINAÇÃO E ANSIEDADE

O mundo é um lugar fascinante, cheio de beleza, de sensações extraordinárias, com todo o gênero de atrativos quase que irresistíveis. Mas, muito embora estes atrativos ocupem continuamente nossa atenção, raramente nos dão qualquer satisfação duradoura. Somos como passarinhos: nossas bocas abertas, permanentemente famintos. E a fome parece sempre continuar. Estamos constantemente nos sentindo NÃO preenchidos, de modo que nossa insatisfação aumenta ainda mais.

Famintos o tempo todo, passamos a nos atrair pelo que os outros possuem; ficamos enredados em um processo continuo de buscar e agarrar em uma procura exaustiva. Nossa mente, cansada e distraída, perde as verdadeiras oportunidades de realização. Nós nos apegamos as mensagens que as nossas percepções sensoriais nos transmitem e, portanto, não aproveitamos a qualidade nutriente do fluxo natural dos nossos próprios sentimentos e sensações. Em vez de nos voltar para as sensações que experimentamos, nós nos focalizamos em nossos pensamentos sobre elas – os quais nunca podem nos trazer muita satisfação.

Quando tomamos consciência da situação, podemos ver que a ansiedade é causada por uma sutil progressão psicológica: a busca de fascinação leva à ansiedade, e a insatisfação leva a novas buscas. Ficamos presos nesta progressão porque nossos pensamentos, nossas fascinações, não podem nos preencher; não têm substância real. Não podemos segurá-los. Seguidamente nos colocamos numa situação de correr atrás do arco-iris. E, quanto mais o perseguimos, mais ansiosos e frustrados ficamos.

Nós fixamos nossa mente em prazeres e satisfação, mas as atitudes que tomamos para tentar alcançar as metas têm um efeito que é justamente o contrário. Nossa mente salta de pensamento para pensamento – relembra o passado, pula para o futuro ou se detém em alguma atração constante. Nossa mente raramente se centra no momento imediato da experiência, que é onde a realização se encontra.

A medida que a corrente de imagens mentais persiste, nossa mente continua a produzir um fluxo aparentemente infindável de pensamentos a respeito destas imagens. Este é o principal fator no estabelecimento do nosso sentido de um eu que precisa “possuir” e que precisa “fazer”. Mesmo em nossa meditação, quando tentamos não “fazer nada, o mesmo processo continua a acontecer.

Na meditação, porém, este processo é tão sutil que, com frequência, não temos ciência de que está ocorrendo. Podemos tentar não ter quaisquer expectativas ou pensamentos sobre nossa meditação, mas talvez eles se escondam no fundo da nossa mente, manifestando-se como um tipo de impaciência, um esperar que algo ocorra. Esse sentimento não precisa ser muito forte para que o estímulo inconsciente da expectativa da fascinação – surja como uma onda em nossa consciência. Quanto mais forte esse sentimento, mais “rápida” e mais potente a onda, que tem uma qualidade tensa, “acelerada”. Isso leva rapidamente à sensação de aperto da frustração e da ansiedade.

A principio, nossa meditação começa a dissolver o senso do eu que precisa “fazer”. Mas, então, a mente se põe a perseguir imagens, como uma forma de compensação. A ansiedade aumenta, agravando ainda mais o fluxo de pensamentos e imagens. Tão logo nos envolvemos com esta qualidade de “fazer”, sentimos necessidade de contato com imagens, palavras, conceitos, self ou objetos. Esta necessidade torna-se mais forte e fixa o padrão ainda mais. As coisas todas acontecem tão rapidamente que não temos tempo para pensar sobre elas. A velocidade deve-se à energia poderosa que está por debaixo de nossas expectativas e ansiedades.

O relaxamento pode reduzir o ritmo desta qualidade tensa e acelerada. Podemos relaxar a mente, diminuir a velocidade dos nossos pensamentos, criar um “tom” diferente que afrouxa os nossos sentimentos mais profundos de expectativa. Quando conseguimos desacelerar e ficar calmos e relaxados, as ondas da ansiedade se reduzem a um leve ondular.

Assim, na meditação, observe seus pensamentos de perto. Simplesmente os observe. A fascinação é como uma onda que se levanta; note como aparece. Ela tem muitas cores cintilantes, atraentes por natureza. Os bons meditadores observam a onda ficar cada vez mais alta, até entender como a fascinação nos faz perder o momento. Aprendem porque imagens belas e idéias interessantes nos distraem tão facilmente.

Podemos aprender a alterar o ciclo da fascinação e da ansiedade, desenvolvendo plena atenção das idas e vindas dos pensamentos e imagens. Ao expandir cada pensamento e, então, levar seu sentimento para um nível mais profundo, podemos evitar de sucumbir a ansiedade – àquela parte da nossa consciência que quer se movimentar, quer fazer alguma coisa.

Podemos impedir que sejamos arrastados a “fazer”, a abandonar nossa meditação, relaxando e mantendo nossa atenção plena. Quando conseguimos conservar nosso equilíbrio e ficar realmente quietos na meditação, a ansiedade e a fascinação, não importa que pensamentos particulares surjam, perdem seu poder sobre nós, liberando nossa energia para fluir desimpedida.

Quando nos libertamos da dominação da ansiedade e da fascinação, cada momento nos oferece uma oportunidade para despertar. Podemos romper o padrão que nos aprisiona, e podemos encontrar, na energia que é liberada, a verdadeira fonte de alimento e de satisfação, a liberdade natural da mente.

Tarthang Tulku – A Expansão da Mente

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